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A rede social vai substituir o jornalismo?

A relação é polêmica, o casamento é longe de ser perfeito, os impactos vão além da queda da receita das editoras e o jornalista tradicional tem se reinventado diariamente para não perder mercado.

Com a inflação tecnológica, o jornalismo tradicional perdeu espaço gradativamente. Os veículos impressos estão com os dias contados. Os portais de notícias ganharam força na última década, mas as redes sociais roubaram a cena.

Em tempos de decadência do jornalismo, nunca imaginaríamos que uma frase do ilustre Mark Twain fosse se tornar tão contemporânea. Falecido há 109 anos, Twain disse: "Se você não lê jornal, é ignorante; se lê, é mal informado".

As redes sociais já fazem parte da vida dos jornalistas. Tanto para pesquisar assuntos, como para publicar fatos. Marcondes Filho publicou em 2000 o livro 'Comunicação e Jornalismo: saga dos cães perdidos', obra brilhante que bem explica as eras jornalísticas e descreve o cenário que o jornalismo está vivendo. Na página 13, o autor cita “A transformação tecnológica irá exigir da empresa jornalística a capacidade financeira de auto sustentação”. A frase não poderia ser mais atual.  

O jornalismo tradicional tem tentado se ajustar à nova realidade, mas as redes sociais vêm transformando a maneira em que os consumidores de noticias recebem a informação. A mídia social não é jornalismo, é um meio, como a televisão ou o rádio, por onde a notícia passeia.

A mídia off-line ainda tem seu poder. As rádios têm seus ouvintes, a televisão seus telespectadores, mas com a chegada massacrante das redes sociais, os grupos de mídia tradicional estão bastante sem rumo. Com tantos canais online, blogueiros, vlogueiros, e influenciadores, a audiência foi repartida e o bom jornalismo deixou de ser tão valioso.

Qualquer pessoa pode postar sobre qualquer assunto online, aumentando a velocidade da distribuição. Todos tornaram-se jornalistas e comunicadores, mesmo sem perceber, e a palavra celebridade ganhou um novo significado – um usuário que conta com milhares de seguidores em qualquer plataforma social.

"As redes sociais são poderosas ferramentas de comunicação, mas não substituem o jornalismo, complementam a notícia e abrem espaço para discussões mais abrangentes. O jornalismo não vai deixar de existir, mas o fluxo de distribuição e o monopólio sim. Quando comecei, eu datilografava o artigo. Os computadores chegaram e passamos todos por uma fase de adaptação. A relação é a mesma." – explica a jornalista Paula Tooths, que pesquisa as consequências da mídia digital no resultado do Brexit e no jornalismo tradicional.

Influenciadores digitais e embaixadores de marcas são as vozes mais poderosas nesse momento e neste caso, quando se trata de uma notícia paga, ela não necessariamente é verídica. Ela é paga. Mas é valido lembrar que uma grande porção da mídia tradicional também funcionou e funciona assim. O jornalismo nunca foi 100% imparcial e a mídia social também não será.

Os jovens adultos não mais lêem jornais e, quando mencionam uma notícia qualquer, geralmente a fonte é uma rede social. O primeiro veículo a render-se foi o gigante britânico The Guardian que consolidou um contrato com o Facebook e deixou de ter controle absoluto de sua distribuição.

Existe um outro ângulo dentro das postagens. Elas são matéria prima para o jornalismo tradicional. O maior problema, como em toda a internet, é diferenciar qual informação é verdadeira.

Hoje, cada vez mais, os chefes de estado bem como as grandes marcas, falam diretamente com o público alvo, pelas redes sociais, de uma maneira informal e descontraída e nesse caso sim, substituem a notícia de última hora e o jornalismo elaborado.

O Facebook tem mais de 2 bilhões de usuários no mundo, ainda é a rede social com maior influência digital. O Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking com 103 milhões de usuários. O Instagram, que foi integrado com o Facebook há pouco, já conta com mais de 400 milhões de usuários, sendo que 29 milhões são contas brasileiras.

YouTube é a grande promessa no meio digital, até por ser mais dinâmico e dispensar leitura. A plataforma já ultrapassou a marca de 1 bilhão de usuários que assistem 4 bilhões de vídeos diariamente.

O Twitter com mais de 280 milhões de usuários e 500 milhões de postagens diárias, ainda é um grande meio de distribuição de noticias, mas não tem vivido seus melhores dias. O Linkedin, é uma plataforma mais segmentada, tem crescido lentamente, mas já conta com mais de 415 milhões de usuários.

“No conceito moderno de jornalismo, as redes dão abertura às notícias fabricadas, que não passam por filtros profissionais e viram verdades naquela audiência. As autoridades não investem em iniciativas para a verificação dos fatos. Todo cuidado é pouco, principalmente em um momento em que fonte não é requisito e credibilidade quase não se faz necessária “ – conclui Paula Tooths.
As plataformas sociais tornam-se uma biblioteca infinita de pesquisa, mas ainda estão longe de substituir o jornalismo. Fragmentos de informação não podem ser comparados ao jornalismo tradicional. O crescimento da atividade jornalística ainda não vai parar nesta geração. Sem dúvida será moldado, reinventado, mas está longe da véspera do fim.

* Paula Tooths é jornalista, produtora de TV e autora de cinco títulos publicados no Reino Unido.